Nenhum outro vai saber dos sons que se formam e
o porquê de você sorrir com a mesma palavra que
faz o outro chorar. A gente vive pra ser secreta,
transposição e transbordamento, além da risca de
giz no nosso próprio telhado que goteja e inunda o
quarto trancado. E tudo isso vai morrer em segredo.


Une cruel incompréhension...



'

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

(...)

      Você suporta minha tristeza, Miguel. Como, isso? Você vai me trazer a flor do canteiro da esquina. Você vai chegar com o vento da primavera e ficar com todo o amor que guardei, que acumulei, que separei entre os pesares da vida. Sinto vontade de descansar em seu peito, de cair em sua mão. Mas sinto seu sorriso ao longe, sua respiração de quem enxerga os esconderijos na borda do coração, então me revivo. Finalmente nos encontramos.

      E poderíamos ser mais, eu sei. Podemos ser tudo, qualquer coisa além. Trazer essa luz pra dentro da sala, pra dentro da casa, pra dentro do mundo. Eu entendo o quanto estamos arriscando, dançando valsa imperial na beira do abismo. Mas já não importa. Sua palavra me cura. Vamos surtindo em passos sem ritmo, sem olhar para os lados. Também tenho esse discurso tolo de utópica certeza. Levo o meu sentimento apertado, meu drama sobrecarregado, me aqueço aos poucos nas pegadas suas que encontro atrás da porta. Sinto saudade enquanto estou perto. Remexo seu avesso, pois nós dois já somos pequenos para o que temos dentro.

      Se fosse mais fácil, talvez o automático renascer do sol não nos tocasse tanto. Porque os dias passam e eu já estou destroçada. Não sempre. Ou melhor, só agora. Sou aflita, impaciente. Não foi você, não foi ninguém. É que preciso dos meus tumultos internos para estar segura. Minha iluminação estragada, minha chave de pontas duplas. Você me acalma, Miguel, mas essa paixão me arde. Fico em segurança. Não esqueço, meu grande amor, que nós podemos adotar todos os nomes do mundo. Não esquece da parte bonita que ainda me restou, misturada com tanta melancolia, esquecida nos templos de uma cidade antiga, de uma rua afastada, de uma cabana simples onde largaram o amor sozinho.

Mariane Cardoso em Miguel

Um comentário:

  1. Deixo uma flor. Vai saber que o amor esteve aqui no seu refúgio.

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Alguma luz
vai escapando
e só eu
sinto.

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18. Menos artista, mais idosa. O prefácio, o retórico, o histórico, o profético, o pró, o fétido, o esplendor e tudo mais o que cabe no poético.